Brasil alcança posição de destaque global em maturidade cibernética
Um panorama sobre a maturidade digital brasileira e o impacto global da cibersegurança
Em um mundo cada vez mais conectado, no qual a dependência de serviços digitais cresce diariamente, a cibersegurança deixou de ser um tema técnico restrito a especialistas para se tornar uma prioridade estratégica. Trata-se de um fator essencial à proteção de dados pessoais, à continuidade dos negócios, à estabilidade de serviços críticos e até mesmo à soberania nacional.
Esse movimento ocorre em um cenário global marcado pela intensificação de conflitos cibernéticos, pelo aumento de ataques a infraestruturas críticas e pela crescente utilização de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e automação, tanto para defesa quanto para ofensiva digital. Países que não tratam a cibersegurança como política de Estado enfrentam impactos diretos em sua economia, reputação internacional e capacidade de atrair investimentos. Nesse contexto, a maturidade cibernética passa a ser um indicador estratégico de estabilidade institucional e competitividade global.
Diante desse cenário, o Brasil vem conquistando reconhecimento internacional por seus avanços. A quinta edição do Índice Global de Segurança Cibernética (GCIv5), publicada em setembro de 2024 pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), posicionou o país no Grupo 1 de maturidade cibernética, classificando-o como modelo global e segundo colocado nas Américas, atrás apenas dos Estados Unidos.
Esse marco reflete não apenas políticas públicas consistentes, mas também a consolidação de uma cultura de conscientização, capacitação e cooperação entre governo, setor privado e sociedade civil.
Embora o Índice Global de Segurança Cibernética não tenha uma nova edição publicada em 2025, os avanços institucionais e regulatórios observados no país ao longo do último ano indicam a continuidade do processo de amadurecimento. A consolidação de políticas nacionais, a ampliação de programas de capacitação e o fortalecimento da cooperação entre setores reforçam que a posição alcançada pelo Brasil em 2024 não representa um ponto final, mas parte de uma trajetória de evolução contínua em cibersegurança.
Em análises desse tipo, a ausência de uma nova edição do índice não significa estagnação. Pelo contrário, o próprio modelo de maturidade adotado pelo GCI pressupõe continuidade e consistência das políticas ao longo do tempo. No caso brasileiro, a manutenção e o aprofundamento das iniciativas estruturantes indicam que o país não apenas preserva os critérios que o colocaram no Grupo 1, como também amplia sua capacidade de resposta frente a novos vetores de ameaça.
A evolução do Brasil no Índice Global de Segurança Cibernética
O desempenho brasileiro ao longo das últimas edições do GCI mostra uma evolução clara:
• 2018: sexta posição nas Américas;
• 2021: terceira posição;
• 2024: segundo lugar e Grupo 1 – Modelo.
Mais do que uma ascensão numérica, esses resultados revelam o amadurecimento de uma estratégia nacional, baseada em diretrizes claras, programas de capacitação, regulação do setor e alinhamento com padrões internacionais.
Essa evolução também evidencia uma mudança de postura: a cibersegurança deixa de ser tratada de forma reativa e fragmentada e passa a ser integrada ao planejamento estratégico do país, alinhando regulação, governança e desenvolvimento de capacidades técnicas a padrões internacionais consolidados.
Na prática, esse amadurecimento institucional se traduz em ganhos operacionais concretos, como maior integração entre órgãos de resposta a incidentes, ampliação da capacidade de monitoramento e melhoria nos tempos de detecção e mitigação de ataques. A maturidade institucional reduz a improvisação e aumenta a previsibilidade na gestão de crises cibernéticas, fator essencial em um ambiente de ameaças cada vez mais frequentes e sofisticadas.
O novo formato de avaliação
Diferente das edições anteriores, o GCIv5 adotou uma abordagem baseada em grupos de maturidade em vez de um ranking linear. Essa mudança reflete melhor o estágio de desenvolvimento dos países em cinco dimensões fundamentais:
• Medidas legais
• Medidas técnicas e procedimentais
• Estruturas organizacionais (governança)
• Capacitação e conscientização
• Cooperação internacional
O Brasil alcançou o Grupo 1 – Modelo, ao lado de países reconhecidos por seus ecossistemas digitais avançados. Essa classificação o coloca como referência global em segurança digital, reforçando sua imagem no cenário internacional.
Além do reconhecimento simbólico, a adoção do modelo por grupos de maturidade permite uma leitura mais qualificada da capacidade real dos países. Em vez de comparações isoladas, o novo formato evidencia o grau de consistência das políticas, a integração entre dimensões técnicas e institucionais e a sustentabilidade das ações de longo prazo, aspectos nos quais o Brasil demonstrou solidez.
As ações que posicionaram o Brasil como modelo
O resultado brasileiro é fruto de esforços coordenados ao longo de anos, com destaque para iniciativas que estruturaram uma política nacional de cibersegurança:
Política Nacional de Cibersegurança e Comitê Nacional de Cibersegurança
A PNCiber e o CNCiber, instituídos pelo Decreto nº 11.856/2023, representam um divisor de águas. Ao estabelecer diretrizes estratégicas e criar um comitê multissetorial, o país fortaleceu a articulação entre governo, empresas e academia no enfrentamento das ameaças digitais.
Adesão à Convenção de Budapeste
A participação na Convenção de Budapeste sobre Cibercrime (Decreto nº 11.419/2023) colocou o Brasil em sintonia com os principais marcos legais globais de combate ao crime cibernético, ampliando sua capacidade de cooperação internacional e harmonização regulatória.
Programa Hackers do Bem
Voltado à formação de talentos e à criação de uma cultura ética de defesa digital, o programa tem capacitado jovens e profissionais em cibersegurança, reduzindo o déficit de especialistas no mercado e preparando o país para enfrentar ameaças cada vez mais sofisticadas.
Regulação e certificações da Anatel
A atuação da Anatel elevou o patamar de segurança no setor de telecomunicações. Normas como os Atos nº 77/2011 e nº 2436/2023 definem requisitos mínimos para equipamentos e prestadoras, enquanto o Guia Orientativo de Segurança Cibernética – Nível Básico democratiza boas práticas, ajudando até pequenas empresas a implementarem medidas de proteção.
Para o mercado, esse avanço regulatório traz maior clareza de responsabilidades e padrões mínimos de segurança, reduzindo assimetrias entre empresas e elevando o nível geral de proteção do ecossistema digital. Ao estabelecer requisitos técnicos e orientações acessíveis, a regulação contribui para a profissionalização do setor, ao mesmo tempo em que fortalece a confiança dos usuários finais nos serviços de telecomunicações e conectividade.
Cooperação e governança multissetorial
Além das iniciativas nacionais, o avanço brasileiro está diretamente associado ao fortalecimento de modelos de governança multissetorial e à ampliação da cooperação internacional. A articulação entre órgãos públicos, setor privado, academia e organismos internacionais tem sido fundamental para o compartilhamento de informações, a resposta coordenada a incidentes e a construção de capacidades coletivas frente a ameaças cada vez mais complexas.
Os impactos para empresas e cidadãos
A conquista brasileira não é apenas simbólica. Ela gera efeitos concretos para o mercado e para a população:
• Ambiente de negócios mais seguro, fortalecendo a confiança de investidores internacionais;
• Proteção ampliada de dados sensíveis, beneficiando consumidores e setores críticos como saúde, telecomunicações, fintechs e e-commerce;
• Estímulo ao desenvolvimento econômico, já que a segurança digital se tornou pré-requisito para inovação, competitividade e expansão de novos serviços digitais.
Na prática, o cidadão percebe maior confiança em transações digitais, enquanto empresas ganham um ecossistema mais preparado para lidar com incidentes e reduzir prejuízos financeiros e de imagem.
Do ponto de vista macroeconômico, a maturidade cibernética também influencia diretamente a inserção do Brasil em cadeias globais de valor. Empresas multinacionais e investidores consideram o nível de proteção digital como critério essencial para operações, parcerias estratégicas e transferência de tecnologia. Nesse sentido, a segurança cibernética deixa de ser apenas um tema técnico e passa a atuar como vetor de competitividade internacional.
Desafios futuros e próximos passos
Apesar dos avanços, o cenário de ameaças continua em evolução. Entre os principais pontos de atenção estão:
• Adoção crescente de inteligência artificial em ataques cibernéticos, tornando-os mais sofisticados e difíceis de detectar.
• Escassez de profissionais qualificados, que ainda limita a capacidade de resposta em escala.
• Necessidade de atualização constante das normas e protocolos, acompanhando a velocidade da transformação digital.
• Fortalecimento da cooperação regional e global, diante da natureza transnacional das ameaças.
O desafio não é apenas manter a posição de destaque, mas também garantir resiliência diante de novas formas de ataque e riscos emergentes.
Em 2025, esses desafios ganham ainda mais relevância diante da aceleração do uso de inteligência artificial, da ampliação de ecossistemas digitais e da crescente dependência de infraestruturas críticas conectadas. O avanço tecnológico amplia oportunidades, mas também eleva a superfície de ataque, exigindo respostas mais ágeis, integradas e baseadas em inteligência.
Paralelamente ao uso ofensivo da inteligência artificial por agentes maliciosos, cresce a adoção de IA defensiva na detecção de padrões anômalos, prevenção de fraudes e resposta automatizada a incidentes. O desafio para o Brasil será ampliar o uso dessas tecnologias de forma ética, transparente e alinhada a marcos regulatórios, garantindo que a inovação em segurança acompanhe a sofisticação das ameaças.
A maturidade cibernética como fundamento da competitividade nacional
O posicionamento do Brasil no Grupo 1 do Índice Global de Segurança Cibernética 2024 representa um marco que vai além do reconhecimento técnico. Ele simboliza a capacidade do país de alinhar políticas públicas, regulação, cooperação internacional e capacitação de profissionais em torno de um objetivo comum: proteger o presente e o futuro digital da sociedade.
Esse reconhecimento vem acompanhado de uma responsabilidade coletiva. Manter o Brasil entre os países líderes em maturidade cibernética exige comprometimento contínuo de governos, empresas e cidadãos, especialmente em um ambiente no qual as ameaças evoluem diariamente e a segurança digital se consolida como um dos pilares da confiança digital, da competitividade econômica e do desenvolvimento sustentável.
Em um cenário geopolítico marcado por disputas digitais, dependência tecnológica e ataques transnacionais, a maturidade cibernética também se relaciona diretamente à soberania digital. Países capazes de proteger suas infraestruturas críticas, seus dados estratégicos e seus ecossistemas digitais reduzem vulnerabilidades externas e ampliam sua autonomia econômica e institucional. Nesse sentido, investir em cibersegurança não é apenas proteger sistemas, mas fortalecer a capacidade do Estado e do mercado de tomar decisões estratégicas com segurança e previsibilidade.
Sob essa perspectiva, a maturidade cibernética não se limita à capacidade de reagir a incidentes. Ela pressupõe visão de longo prazo, investimento consistente e integração entre tecnologia, pessoas e processos. Países que adotam essa abordagem constroem não apenas sistemas mais seguros, mas sociedades mais resilientes, capazes de sustentar inovação, crescimento econômico e confiança institucional em um ambiente digital cada vez mais complexo.
Assim, a maturidade cibernética deixa de ser apenas um indicador técnico e se consolida como um fator decisivo para a competitividade do país no cenário global. Proteger dados, serviços e infraestruturas é, cada vez mais, proteger a confiança digital que sustenta a economia, a inovação e a própria relação entre Estado, empresas e cidadãos.